Após análise da forma como decorreu o processo de classificação e os resultados da prova de exame nacional de Biologia e Geologia (Prova 702), da 1.ª fase de 2026, a Ordem dos Biólogos decidiu apresentar um conjunto de observações e recomendações que visam contribuir para a melhoria do processo de avaliação externa desta disciplina.
Não está em causa a metodologia de correção adotada, baseada na digitalização e classificação por item, uma vez que esta poderá constituir um avanço significativo na uniformização dos procedimentos, na redução da subjetividade inerente à avaliação e na otimização das condições de trabalho dos classificadores, permitindo uma maior flexibilidade, uma utilização mais eficiente dos recursos disponíveis e uma redução dos constrangimentos organizacionais associados ao processo de classificação. Importa reconhecer que este novo modelo permitiu alargar o universo de classificadores, possibilitando a participação de docentes colocados nas Escolas Portuguesas no Estrangeiro, o que representa uma mais-valia para o sistema e contribui para uma maior disponibilidade de recursos humanos qualificados no processo de avaliação. Contudo, identificaram-se diversas falhas técnicas e operacionais durante o processo de classificação, que não podem ser ignoradas ou menosprezadas, e que deverão ser corrigidas de modo a garantir a equidade e a fiabilidade da classificação das provas de avaliação externa, assim como a confiança dos seus intervenientes.
Falhas técnicas e operacionais identificadas
Biólogos que efetuaram a classificação de provas de Biologia e Geologia
reportaram à Ordem dos Biólogos um conjunto de constrangimentos identificados,
que a seguir se elencam, para que possam ser devidamente corrigidos:
- Resolução inadequada da interface - a plataforma de correção necessitava de uma redução de zoom do browser para ser funcional, pelo que importa garantir que a interface se adapta a diferentes resoluções de ecrã antes da sua reutilização.
- O botão de colocação dos critérios de classificação, ao lado da resposta a classificar, não funcionava.
- O botão "Finalizar", existente na versão inicial, deixou de estar disponível após atualizações à plataforma de classificação.
- A ausência de um mecanismo de busca por código de prova dificultava o retomar, para nova leitura ou correção, de respostas já classificadas.
- Ausência de folhas de continuação, em situações em que o texto indicava claramente a sua existência.
- Erros na classificação de itens com classificação automática, detetados aquando da consulta da prova pelos alunos. Muitos destes erros estavam em respostas emendadas de acordo com as instruções da folha de prova (anulação do círculo com X).
Consideramos particularmente preocupante que algumas destas falhas apenas tenham sido identificadas após a divulgação das classificações, uma vez que tal pode afetar a perceção de justiça e credibilidade associada ao processo de avaliação externa. Tal facto tem também consequências diretas para os alunos, nomeadamente um previsível aumento de pedidos de reapreciação e a necessidade de garantir que os erros identificados a posteriori sejam corrigidos com efeitos retroativos na classificação final, salvaguardando o acesso ao ensino superior dos candidatos afetados. Torna-se, por isso, indispensável a implementação de mecanismos robustos de validação técnica e de auditoria prévia das plataformas digitais utilizadas em exames nacionais.
Dificuldades dos alunos e resultados obtidos
Durante o processo de classificação constatou-se , uma vez mais, a existência de dificuldades significativas por parte de muitos alunos na aplicação de conhecimentos em contextos específicos e na interpretação dos resultados de dados experimentais, particularmente quando apresentados sob a forma de gráficos. Esta dificuldade mostra a necessidade de se promover o ensino experimental das ciências, a análise crítica de informação, a atualização curricular e a formação de docentes.
Analisando os resultados obtidos na prova de Biologia e Geologia, divulgados pelo EduQA, verifica-se que, para além de uma média mais baixa que a do ano anterior, a distribuição de classificações não pode ser considerada normal, contrastando claramente com as distribuições apresentadas nos anos anteriores, e apresenta o maior desvio-padrão dos últimos 7 anos (vide figura abaixo). Em termos simples, a distribuição deixou de corresponder a um único grupo relativamente homogéneo de desempenhos para passar a apresentar dois agrupamentos distintos de alunos, um padrão bimodal, separados por uma zona de menor frequência de classificações.
A distribuição bimodal (embora com um vale raso, ~6-7%, e que pode estar próximo do ruído estatístico), associada à maior dispersão de sempre nesta série (desvio padrão de 46), distingue 2026 do padrão liso e previsível que existia desde 2020. Esta mudança de padrão não encontra uma explicação evidente numa mudança na estrutura da prova, que se manteve substancialmente inalterada e com grau de dificuldade semelhante ao dos anos anteriores.

Figura 1: Distribuição de Classificações nas provas de exame nacional de Biologia e Geologia, entre 2021 e 2026
Conclusão
A Ordem dos Biólogos reconhece o valor do novo modelo de classificação digital por item, nomeadamente pela uniformização de procedimentos e pelo alargamento do universo de classificadores. Todavia, o conjunto de falhas técnicas e operacionais identificadas levanta preocupações legítimas quanto à fiabilidade do processo na sua primeira aplicação em larga escala. Esta preocupação é reforçada pelos próprios resultados obtidos na prova de Biologia e Geologia de 2026, pois apresenta o maior desvio-padrão dos últimos sete anos e uma distribuição bimodal sem precedente na série 2020-2025, num contexto em que a estrutura e o grau de dificuldade da prova se mantiveram substancialmente inalterados. Embora não seja possível estabelecer uma relação de causalidade direta entre as falhas reportadas e a alteração do padrão estatístico, a coincidência entre ambos os fenómenos justifica, no mínimo, uma análise aprofundada por parte do EduQA sobre o impacto real dessas falhas na equidade da classificação. Neste sentido, a Ordem dos Biólogos recomenda a realização de uma auditoria técnica completa à plataforma de classificação antes da sua reutilização em fases subsequentes de exame e uma análise formal, por parte do EduQA, das causas subjacentes às classificações obtidas em 2026, através de uma comunicação transparente dos resultados, de modo a restabelecer a confiança de docentes, alunos e encarregados de educação no processo de avaliação externa.
23 de julho de 2026
O Colégio de Educação da Ordem dos Biólogos