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Tributo ao Professor Viveiros: facetas de uma personalidade humana

Facetas de uma personalidade humana

Não tive o prazer de ter tido o Professor Viveiros como mestre. Durante o meu curso ele esteve ausente, em Lourenço Marques, desenvolvendo a sua carreira académica e científica. Quando voltou à Politécnica (como nós dizíamos, embora fosse já Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa) foi em 75, era eu uma jovem assistente. Como estava adstrita a outras disciplinas nunca tive o privilégio de ser sua assistente e de com ele ter privado o seu conhecimento profundo sobre a botânica.

Tinha apenas as informações dos colegas que trabalhavam com ele ou dos seus alunos. Meticuloso, disciplinado, nunca impunha disciplina, mas emanava uma disciplina pedagógica que levava os alunos a ficarem fascinados com o seu saber metódico e a sua dedicação ao ensino. Calmo, muito sereno, mas sempre retraído para com os colegas sobre quem tinha um enorme respeito e atenção. Tive, sim, o privilégio de poder assistir a algumas tertúlias entre ele, o Professor Pinto Lopes e o Professor Rosado: “beber” o conhecimento das discussões acesas.

Só ficava mais “solto” e mais jocoso quando nos reuníamos nos almoços de Natal ou de fim de ano académico, como era costume naqueles idos tempos. Nunca faltava a nenhum e era sempre o primeiro a anuir que este tipo de eventos eram fundamentais para manter os laços entre as pessoas. Já depois de jubilado nunca faltava a um almoço de Natal do Departamento de Biologia Vegetal da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, no Campo Grande, local onde nunca leccionou.

Durante o meu doutoramento, e passadas as provas, confessou-me que o doutoramento dele o tinha marcado muito, como se de uma herança pesada se tratasse. Por isso compreendia bem o meu esforço e a minha dedicação. Seguiu-me e acompanhou-me em todos os meus concursos e as minhas provas de agregação, mesmo já depois de jubilado, dizendo que admirava a minha tenacidade e que sentia pena de nunca ter sido um cientista para deixar um legado documental para as novas gerações. Nunca entendi muito bem essas suas palavras. Só agora, depois de todos estes anos, percebi que o podia e devia ter rebatido. Um professor deixa Obra, escrita ou oral, consoante as suas possibilidades e facetas pessoais. O Professor Viveiros deixou um legado enorme a todos que com ele privaram, que com ele aprenderam a amar, a “ver”, a gostar da botânica. O carinho e as memórias dos alunos é a maior e justa homenagem que um Professor pode receber.

Maria Amélia Martins-Loução

Deixou-nos o Professor Viveiros

Foto do Prof. Viveiros

“Sempre calmo e dedicado / Ensinando muito bem / É por nós considerado / O Mestre que convém”. (quadra dedicada pelos alunos, constante de um Livro de Curso)

Faleceu ontem, Domingo de Páscoa, o Prof. António Viveiros. Contava 101 anos. Pai do nosso colega e actual conselheiro da OBio Miguel Viveiros, o Prof. Viveiros tocou diversas gerações de futuros Biólogos da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, onde iniciou o seu percurso profissional em 1945, na Botânica, como 2.º Assistente (v. tb. “Vidas – António Viveiros”, Revista Biologia e Sociedade, Junho de 2011).

À família enlutada, a Ordem Biólogos manifesta o seu mais sentido pesar, neste momento triste em que parte um Professor por todos estimado, um exemplo de dedicação ao ensino da Biologia, de uma afabilidade extrema e que nunca será esquecido por aqueles que ensinou.

O corpo estará amanhã, 2.ª feira 17 de Abril a partir das 15:00h em câmara ardente na igreja de São João de Deus (Praça de Londres, em Lisboa), realizando-se o funeral no dia seguinte, entre as 13 e as 14h, seguindo para o cemitério do Alto de São João, também em Lisboa.